Exposição Do Valongo à Favela: imaginário e periferia. Curadoria Clarissa Diniz e Rafael Cardoso. Museu de Arte do Rio de Janeiro. Maio 2014- Fevereiro 2015.

Assistência Curatorial , Pesquisa e levantamento de obras relevantes à temática nos acervos do Museu Histórico Nacional, Arquivo Público da Cidade do Rio de Janeiro, Mapoteca do Itamaraty, Coleção Roberto Marinho, Instituto Ricardo Brennand, Fundação Biblioteca Nacional, Arquivo Nacional, Museu Nacional de Belas Artes, Arquivo Publico do Estado do Rio de Janeiro, Biblioteca Parque Estadual (BPE), Coleção Fadel, Coleção Jean Boghici etc. Elaboração de legendas técnicas e legendas de textos expositivos e criação de texto " O Rio Maldito de Augusto Malta" para o catálogo da mostra. 

"A parte do Rio de Janeiro que corresponde hoje aos bairros da Saúde e da Gamboa pode ser considerada a primeira periferia do Brasil. Ao longo do tempo foi sendo transferida para a região uma série de atribuições indesejáveis para a porção da cidade considerada mais nobre. Com o aumento das atividades portuárias, o carregamento de mercadorias passou do antigo cais próximo ao Largo do Paço (atual Praça XV) para a Prainha (hoje Praça Mauá). Não somente ouro e diamantes escoados de Minas Gerais, como também a carga humana trazida da África, faziam parte desse tráfico de coisas e de gente. Já no século XVIII, o mercado de escravos se estabeleceu próximo dali, na Rua do Valongo, seguido de perto pelo Cemitério dos Pretos Novos. Os chamados “usos sujos” se multiplicavam*.  A prisão do Aljube foi instalada em 1733, perto do trecho onde hoje se entroncam as ruas do Acre e Leandro Martins, enquanto o Hospital da Saúde – para doenças contagiosas – tinha sua localização entre a Rua da Gamboa e o Saco do Alferes, próximo ao Cemitério dos Ingleses. Volta e meia, a Forca Pública era armada na Prainha e os condenados levados à Igreja de Santa Rita para receber as últimas consolações.
 

Por entre processos de marginalização e, por vezes, degradação, a região foi se transformando em lugar de pobreza, violência e morte – limite e espelho da cidade que prosperava na faixa estreita entre o Morro do Castelo e o de São Bento e cuja população abastada começava a se espalhar para as novas freguesias ao oeste e ao sul. A desigualdade entre essa e outras partes da cidade foi confirmada, no final do século XIX, pelo surgimento da primeira favela, no Morro da Providência, a poucos metros de onde antes existiu o mercado de escravos. Diante desse cenário, no início do século XX, a Saúde era o local mais temido da cidade, na perspectiva de muitos que moravam noutras partes do Rio de Janeiro. Seus “bambas”, “malandros” e “capoeiras” eram o assunto predileto das reportagens policiais. E ali, a meio caminho entre o porto e a favela, na chamada Pequena África, entre o preconceito e a resistência à dura realidade social, nasceu o samba, acalantado pelos estivadores e pelas prostitutas que frequentavam seus botequins.
 

Tomando essa história de exclusão como ponto de partida, a exposição Do Valongo à Favela: imaginário e periferia examina como foi sendo formado o imaginário cultural dessa periferia, por meio de sua presença na arte. A mostra cria um percurso desde as imagens antigas do lugar e das atividades ali decorridas, até a elaboração da favela como questão de interesse da arte para muito além dos limites geográficos que lhe deram origem. Hoje, as ideias de “periferia” e “periférico” são de importância vital para a arte contemporânea, colocada aqui em diálogo crítico com vestígios de um passado que vai sendo revisto e reinventado. A favela, em sua relação com a região portuária do Rio de Janeiro, tem longa história, sendo parte fundamental dos modos de memória e de vida do Brasil. Precisa de visibilidade para que o respeito, devido a todos, alcance também os que foram sempre excluídos e postos à margem.
 

Rafael Cardoso e Clarissa Diniz, curadores

 

*O termo “uso sujo” foi inaugurado pela urbanista e historiadora Nina Maria de Carvalho E. Rabha, nos anos 1980, para descrever as funções indispensáveis ao funcionamento da cidade, mas que maculam sua imagem simbólica.

Núcleos significativos

Do Valongo à Favela: imaginário e periferia ocupa integralmente o terceiro andar do MAR, reunindo ampla seleção de imagens e obras divididas em oito núcleos significativos:

Praia Formosa
Rua do Valongo
Pequena África
O Bairro Rubro 
Praça Mauá
Problema Social
Fato Estético
Periferia é periferia"
In http://www.museudeartedorio.org.br

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