Entre arquivos, bibliotecas e memórias: os bastidores da pesquisa da exposição “Da Kutanda ao Quitandinha” do SESC RJ, 2023.
Atualizado: 2 de set.
Há exatamente três anos, em 1º de setembro, eu passava o dia mergulhada no acervo do Arquivo Público Municipal de Petrópolis.
Era mais um dia de pesquisa histórica da N30 Pesquisas para a exposição inaugurada em dezembro de 2023 “Da Kutanda ao Quitandinha – 80 anos”, com curadoria geral de Marcelo Campos, co-curadoria de Brunho Pinheiro, Renata Aquino e Filipe Graciano e produção do Estúdio Sauá, de Tânia Sarquis. A exposição abriu as comemorações dos 80 anos do Quitandinha propondo um deslocamento fundamental: contar a história daquele território antes do hotel-cassino inaugurado em 1944.

Na N30 Pesquisas, cruzamos documentação histórica, iconografia, fontes institucionais e pesquisa de obras de arte para reconstruir uma narrativa que reposicionasse o Quitandinha dentro de narrativas diversas. Entre as contribuições do trabalho estiveram pesquisas orientadas pelos curadores sobre a trajetória e a produção de Tomás Santa Rosa (1909–1956) — autor dos murais da piscina e do café-concerto, dos biombos decorativos do Quitandinha e figura decisiva na renovação da cenografia e do design editorial brasileiro — e de Wilson Tibério (1920–2005), artista negro que realizou, em 1946, uma exposição de cerca de 130 obras nos salões do Quitandinha e cuja atuação conectou o Brasil aos debates internacionais sobre artes negras, da Sorbonne, em Paris, ao Festival Mundial de Artes Negras, em Dacar.

![Abdias Nascimento, Santa Rosa e elenco fazendo a leitura da peça Calígula de Albert Camus [1948-1949]. O cenário da peça foi de Santa Rosa. Pesquisa no Acervo do IPEAFRO (N30 Pesquisas).](https://static.wixstatic.com/media/c278dc_0a129c5b243e4690b8eb0548290c59c1~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_450,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/c278dc_0a129c5b243e4690b8eb0548290c59c1~mv2.jpg)







A exposição também evidenciou através da pesquisa da Renata Aquino a presença da antiga kitanda — feira operada por mulheres negras que desempenhava papel expressivo na economia do século XIX — no local onde mais tarde seria erguido o Quitandinha. A origem das palavras kitanda (“feira”) e kutanda (“ir para longe”), do quimbundo, tornou-se um eixo importante para compreender as permanências, os deslocamentos e as transformações daquele território. A mostra percorreu diferentes temporalidades do Quitandinha, reunindo as influências africanas em Petrópolis e na cultura e sociedade brasileira; redes econômicas negras do século XIX; o glamour do hotel-cassino; as obras de Tomás Santa Rosa e Wilson Tibério; além da primeira Exposição de Arte Abstrata de 1953, dos Bailes Black, do carnaval, do funk e da Furacão 2000, revelando um espaço continuamente reinventado por diferentes grupos sociais.


E, nesse percurso de pesquisas, o Arquivo Público Municipal de Petrópolis foi indispensável. Seu acervo reúne documentos administrativos, plantas urbanas, mapas, fotografias, revistas de época, jornais, processos e outras séries documentais que permitem reconstituir a formação da cidade de Petrópolis e do cassino-hotel Quitandinha em múltiplas camadas de memória. É um daqueles arquivos que lembram, diariamente, que preservar documentos é também preservar possibilidades de interpretação e estudos.



Três anos depois, volto a essa lembrança para celebrar o trabalho silencioso da pesquisa histórica para projetos culturais expositivos: aquele que acontece entre caixas-arquivo, jornais antigos, capas de livros, obras de arte de reservas técnicas e coleções particulares, fotografias, gravuras e desenhos... Materiais documentais que, quando revisitados, enriquecem a forma como contamos as histórias.








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